
Há filmes que não se veem apenas; sentem-se como quem toca numa ferida existencial.
Frankenstein, de Guillermo del Toro, é isso mesmo: uma história de criação, abandono e vingança, onde o monstro não é a Criatura… mas o “Deus” que lhe deu vida e depois virou costas.
E antes de entrar no filme, deixa-me dizer-te isto: se nunca viste Gothic (1986), vê antes deste filme. É o preâmbulo perfeito. Não é sobre Frankenstein em si, é sobre a noite em que Mary Shelley inventou o “monstro”. E termina com a narração que carrega toda a tragédia que Del Toro tenta replicar:
**“A minha história é uma história da criação…
de uma criatura atormentada pela dor
pela tristeza e… com sede de vingança.Que persegue o seu criador,
a sua família e os seus amigos,
até ao seu túmulo.”**

É assim que se apresenta a maior metáfora da solidão humana alguma vez escrita.
Lisboa Sem Frankenstein
Enquanto outras Capitais tiveram direito ao brilho visual absoluto, em Lisboa… nada. Zero exibições em sala. E dói! Porque Del Toro, mesmo nos filmes que não me convencem, e são quase todos à excepção do Labirinto do Fauno e a A forma da Agua, é mestre absoluto em estética e textura.
Ver isto numa Netflix da vida a 1080p é quase um insulto, os negros perdem profundidade, o grão da imagem desaparece, e certos efeitos CGI ficam expostos como ossos mal cobertos…
Um filme destes merecia o escuro da sala, o ar pesado, e um projector 4K a cortar a respiração… Não o tivemos, pelo menos em Lisboa… Por isso restou esperar pelo dia 7 de Novembro para o poder ver no “pequeno ecrã”
Primeira Parte: O Victor Que Nunca Soube Amar
Se há críticas que acertam, são as que dizem que a primeira metade da história, a contada pelo Victor é a mais fraca. E não é por falta de ambição: Del Toro tenta fazer dele um génio torturado, alguém perseguido desde criança pela pressão e pela violência emocional do pai. Mas nunca chega lá.
O Victor que o filme nos dá é simplesmente VAZIO.
Um homem que aprendeu a desafiar a morte mas nunca aprendeu a sentir a Vida. E isso, que até podia ser fascinante, e o é em outros filmes, outros guiões, neste acaba por tornar a personagem enfadonha e caricatural.
E, acima de tudo, distante da profundidade que Mary Shelley lhe deu.
Demasiado longe da obsessão filosófica, demasiado perto da telenovela familiar.
Segunda Parte: A Voz da Criatura
Chegamos à parte contada pela Criatura. E aí… o filme muda. A alma acende-se. O coração despedaça-se. A Criatura de Del Toro não é um monstro, é um homem, remendo de muitos outros homens, sem nome, sem memória, sem mundo. E é nesta parte que a história respira dor verdadeira, talvez partilhe da mesma dor que Mary Shelley imaginou naquela noite de tempestade…
O mais comovente para mim, é perceber que, ao contrário do que muitas reviews disseram, não é um “erro narrativo” o Victor não saber que o ser tem sentimentos. É o contrário: – é a prova viva da monstruosidade do criador!
Um pai que abandona o filho ao primeiro olhar. Um cientista que vê músculos mas nunca viu alma. Um homem que quis derrotar a morte mas nunca soube amar a Vida…
E a Criatura, sem amor, sem teto, sem fogo, sem a misericórdia da própria morte… torna-se aquilo que o mundo fez dela; um espelho negro da crueldade humana.
A Elizabeth, que também tem muito pouco neste filme, é a noiva do irmão de Victor Frankenstein e pouco mais… mas vá lá, que lhe dão o dom da humanidade, vê a criatura com olhos limpos e dá-nos aquela centelha de compaixão. O seu respeito, quase amor, tornam a tragédia ainda mais profunda:
o ser que ninguém quis é finalmente visto… mas tarde demais.
O CGI e os Ratos da IA
Sim, Del Toro também escorrega aqui. Os ratos parecem IA barata.
Os lobos… iguais. Algumas texturas saltam demasiado em 1080p.
E lá voltamos ao mesmo: – se isto tivesse estreado no cinema, muita coisa passava melhor.
No fim, o meu veredito:
Mesmo com falhas, esta adaptação tem alma! A segunda metade vale por inteiro o preço do bilhete que nunca pudemos comprar! E a dor da Criatura… essa, Del Toro soube filmar com respeito. Portanto:
7,7 em 10 coincide com o numero de Deus! Belo e ao mesmo tempo Cruel, a 3 décimas que esteve da Eternidade…
Mas fica-se só por ser um filme que se vê bem, e recomenda-se, mais pela tragédia, pela poesia, pela violência emocional da criação abandonada.
Metal & Rock — Frankenstein no Som
Uma história destas respira melhor com guitarras a sangrar e vozes que soam como trovões.
Aqui fica uma pequena banda sonora toda ela inspirada pelo nosso monstro sem nome:
BONUS para quem chegou ao final da página! Existe uma série Turca também ela da NETFLIX que vale muito a pena ver inspirada no romance de Mary Shelley:

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