22.11.2025 — Lisboa.

Há dias em que o universo parece finalmente alinhar tudo aquilo que andámos a adiar durante anos… em que fechamos ciclos — daqueles pesados, que carregamos às costas desde a juventude — e de repente, sem aviso, somos brindados com momentos que nos lembram porque é que nunca desistimos.

A 22 de novembro de 2025, terminei algo que ansiava desde jovem adulto e que, por uma razão ou outra, ficava sempre empurrado pela vida real: o meu 12.º ano, através do RVCC Programa Qualifica.

Na dissertação final não defendi apenas um portefólio. Defendi o que sou. Defendi o Heavy Metal como ato cultural, como linguagem emocional, como chão e como céu. Falei da forma como este género foi tratado como parente pobre da cultura, falei do espírito de comunidade que tantas vezes nos salva, e falei das bandas que estiveram comigo ao longo destas três décadas.

E é aqui que as coisas parecem ganhar um sentido maior, invisível, mas presente:

– Na mesma noite em que fechei este ciclo da minha Vida, voltei a cruzar-me no RCA Club com uma banda que conheço desde os meus 14-15 anos 1995/96, Quando ainda era tudo novidade e quando muito pouco ou nada, se falava de bandas femininas no extremo do Metal: As Black Widows.

Lembro-me delas surgirem num tempo em que alguns dos meus amigos diziam que aquilo era “white metal”, só porque algumas letras tinham uma espiritualidade cristã.

Rótulos fora, as miúdas tinham força, atitude, estética e uma ousadia que marcava quem crescia (como eu) num país onde o Metal ainda vivia na sombra.

Ver as Black Widows 30 anos depois, num dia tão simbólico para mim, foi fechar este ciclo com chave de ouro. Um privilégio que não se explica… só se sente.


A formação atual é possivelmente a melhor da última década e meia

As Widows passaram por muitas metamorfoses ao longo dos anos, mas a encarnação atual é, para mim, uma das mais sólidas e inspiradas:

  • Rute Fevereiro — voz e guitarra, coração e vértebras da banda
  • Marta Brissos — bateria, técnica e presença
  • Mónica Rodrigues — teclas, atmosfera e elegância
  • Íris Prado — guitarra, energia fresca e riffs afiados
  • Cátia Carvalho — baixo, beleza arrebatadora, groove consistente e forte!

Abertura: Lord of Confusion

Os primeiros a subir ao palco foram os Lord of Confusion, uma banda que honra o nome… psicadélico, denso, doom a puxar para o ritualístico. Admito que, por ter confundido a hora da abertura de portas com a hora do início do concerto, acabei por apanhar pouco da atuação. Não me pareceu exatamente dentro do que costumo ouvir, mas deixaram curiosidade suficiente para revisitar com calma. Fica para um outro dia, uma opinião mais fundamentada…


O início inesperado! Black Orchid em versão Macho Man

Pouco depois das 21h, quando toda a gente esperava ver as Black Widows entrarem em palco, surge antes uma banda masculina! Amigos próximos das Widows que tomaram de assalto o primeiro tema BLACK ORCHID. Uma homenagem divertida, inesperada e que arrancou sorrisos e gargalhadas… uma forma bonita de dizer: hoje celebramos todos!


Momentos altos: emoção, memória e feridas Existenciais!

O concerto seguiu com força, beleza, groove e carisma que estas Senhoras há muito nos habituaram! Mas houve um momento que me fez engolir em seco, e sentir o nó na garganta: “She Decided to Die”, dedicada à Carla Marques, teclista da formação original, tragicamente falecida em 1999.

Este foi o instante em que o tempo parou.
Silêncio, respeito, memória.
Uma sala que respirou em uníssono.

E foi aí que o RCA inteiro respirou mais fundo.
E foi aí que me lembrei — quase palavra por palavra — daquilo que expliquei horas antes no meu júri do RVCC, quando defendi o Heavy Metal como ato cultural e como linguagem da minha Vida.

É que é nestes segundos que percebemos porque é que o Metal nunca foi só música. É abrigo. É legado. É cura.


O futuro: “The Seer”

Para fechar com a certeza de que estes 30 anos não são um fim, mas um novo (re)começo, as Widows apresentaram “The Seer”, tema novo gravado por Fernando Matias nos Pentagon Audio Manufacturers, com videoclip já disponível no youtube. Uma música que mostra bem que, apesar de veteranas, continuam afiadas, criativas e com muito para dar à cena portuguesa.


Salas a meio gás… mas com GIGANTES a segurarem o barco

E aqui entra aquele ponto que pesa e custa admitir.
A noite não encheu. O RCA estava a meio gás.

E, sinceramente, dói ver isto! Dói ver que bilhetes a 12 euros com uma bebida de oferta! não chegaram para motivar muitos a testemunharem uma parte da nossa história viva.

Mas é nestas alturas que percebemos a sorte que temos em ter casas como o RCA Club, que desde 2013 fazem um verdadeiro SERVIÇO CULTURAL.

Casas que abrem portas às bandas portuguesas, que mantêm horários decentes, que investem em equipamento a sério, e que têm técnicos que são músicos de renome, gente que não é bazaroca e sabe o que está a fazer, gente que ama aquilo! São pilares discretos que mantêm viva uma cena que muitas vezes o país insiste em ignorar.


Epílogo: história viva, afetos verdadeiros!

Foram 90 minutos de música, convidados de primeira água, cumplicidade e uma plateia cheia de caras do nosso underground.

Mas acima de tudo, foi um concerto que veio no dia certo.
Uma noite que me lembrou que tudo está ligado: #nós , a música, a comunidade e aqueles ciclos que finalmente se fecham quando menos esperamos.

E assim se cumpriu ao vigésimo segundo dia de Novembro do Ano de Nosso Senhor de 2025:

Com as Black Widows.
Com história.
Com emoção.
Com VERDADE.


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