
Parece que as tempestades e os seus nomes perseguem-me…
Há exatamente um mês estava eu no Music Station, no Under the Doom, com a tempestade Gabrielle lá fora…
E agora , era a tempestade Benjamim, que ameaçava fustigar Lisboa.
Com tanto aviso climatérico, e tanto alarido nas Televisões, fico meio na dúvida se nos andam a aldrabar ou se há mesmo assim tantas tempestades, para já termos dado a volta em menos de um mês, e estarmos de regresso à letra “B” …
Como gato escaldado de água fria tem medo, resolvi mostrar quem manda no trabalho, onde e bem a “antiguidade ainda é um posto” e saí mesmo às 18h! Para ter tempo de atravessar a cidade de ponta a ponta, calmamente, pois uma vez mais, havia jogo no Estádio da Luz, e decorriam ao mesmo tempo eleições para a Presidencia do Clube.
E por isso, desta vez, meti-me pelo Eixo Norte-Sul! Uma flawless victory! Cheguei a Alvalade em 20 minutos! Tempo mais do que suficiente para beber uma cerveja e comer uma sandocha com a minha mais que tudo antes das portas abrirem!
ALLGEMA – A última viagem deste capítulo
Os Allgema foram os primeiros a subir ao palco, e provavelmente esta terá sido a última vez em Lisboa, que os vimos a defender o seu primeiro álbum de longa duração.
Set concentrado, mas saboroso, como um shot bem mandado!
Os meus momentos preferidos da atuação, foram a “Eyes Without Soul” claro, “Black Sheep” e encerraram com a “Find the Way Out” quase de forma simbólica, porque estão prestes a entrar novamente em estúdio.
Que venham novas saídas, novas entradas, e um novo capítulo para este grupo que tem vindo a afirmar-se de forma sólida dentro do underground nacional.
PÂNTANO – Semi Alma, Corpo Inteiro
Logo a seguir, os Pântano mostraram porque são uma super banda.
Com o Arlindo Cardoso, exímio baterista (e uma das caras visíveis do Comendatio Music Fest, em Tomar), esteve irrepreensível. O baixista João Arroja segurou o peso do groove com uma precisão cirúrgica, enquanto o vocalista; o carismático Nuno Rodrigues dos W.A.K.O decidiu transformar o palco numa aula de Power Jump, mas sem nunca comprometer a voz!
Pelo contrário: entre explosões de energia, o Nuno teve momentos de introspeção que nos atingiram em cheio. Algumas das coisas que disse, tocaram-me na alma, falou-nos diretamente, olhos nos olhos, sobre os anos 90, sobre o tempo que passa e não volta, no pouco que tinhamos e mesmo assim eramos felizes, e no tanto que agora temos, e desdenhamos… e remata e fere-nos de morte, com as perdas que a vida nos vai arrancando. Talvez seja isso que procura explicar em “Semi Alma” : alguém que, ao perder tanto, também perde-se (parte) de si.
E se calhar estou a imaginar, divagar, ou a ser demasiado lamechas (culpem as 3 horas de sono e esta mudança de hora que me fode o ciclo solar!), mas “Semi Alma” foi, para mim, a revelação da noite. Juntamente, claro, com as já conhecidas “Cabrão Nefasto”, “Inferno” e “Solitude”, que continuam a soar cada vez mais densas e emocionais ao vivo. Banda do caraças!
SINSAENUM – Sangue novo, alma eterna
Com uma casa muito modesta, chegámos então à banda da noite : Sinsaenum.
Confesso que sempre me fez confusão aquele pessoal talvez a dar uma de “true” que vão aos concertos só pelas bandas de abertura, mas desta vez, era eu que estava nesse papel.
Conhecia pouco do repertório deles confesso, tirando o que li por aí, e foi a presença de Don Aires no baixo (Moonspell) amigo de muitas noites que me puxou até ao RCA. A banda conta ainda com Stéphane Buriez, Frédéric Leclercq e Sean Zatorsky da formação original, e nesta tour o baterista também PORTUGUÊS Andre Joyzi tem a difícil tarefa de ocupar o lugar deixado por Joey Jordison (R.I.P.), o lendário fundador.
O novo álbum de 2025 tem sido bem recebido pela crítica, que o descreve como um regresso às raízes extremas , riffs serrados, vocalizações brutais, mas também uma abordagem com melodia e algo sombria.
E ao vivo, tudo isso fez sentido!
Durante pouco mais de uma hora, o som foi uma avalanche controlada.
A banda, apesar de visivelmente cansada da estrada, mostrou-se comunicativa, inspirada e com uma energia contagiante.
Destaque para o momento mais emotivo da noite: “The Last Goodbye”, dedicada a Joey Jordison. Um daqueles instantes em que o peso dá lugar à memória, e a música serve de catarse…
Entre as mais fortes estiveram “In Devastation” (abertura arrasadora), “My Swan Song”, “Spiritual Lies” e “Sacred Martyr”.
Saí do RCA com a sensação de ter assistido a um dos melhores concertos do ano, que encaixa facilmente no meu Top 5 de 2025.
Epílogo:
Lá fora, a tempestade Benjamim acabou por não passar de uma mera ameaça.
Cá dentro, a alma (semi ou inteira) andou ao rubro…
O RCA Club continua, para mim, a ser a melhor sala da cidade no que toca a concertos underground: merecia ter tido nesta noite de sábado, mais público, mais atenção. E Promotores como o Carlos Freitas da Notredame Productions, mais apoio e divulgação.
E por tudo isto, dou por mim, novamente na viagem e divagação no conceito de “semi-alma”… para vos dizer que talvez , como Fernando Pessoa tenha razão, e a nossa alma já só seja um resquício que jaz em nós… Mas que ainda pulsa, em noites como esta.
Bruno da Costa a.k.a Likes de um Metaleiro.
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